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. Medicina da Alma
 Revista Estilo Natural - Texto: Patrícia Afonso  Fotos: Manoel Marques
 

Somos todos diferentes e, portanto, únicos. Cada um de nós é dono de um universo particular, uma esfera própria, que nos faz receber o que a vida nos dá de formas distintas. Uma palavra, um gesto, um alimento, um toque e até um sentimento podem causar reações das mais opostas em cada pessoa, afinal, cada alma tem a sua verdade. É levando em conta essa individualidade, sem esquecer que somos parte de um mesmo todo, que trilha uma das mais antigas sabedorias do mundo, a medicina ayurvédica ou indiana. A palavra Ayurveda, de origem sânscrita, significa "ciência da vida" e já nos dá uma idéia do que propõe esse sistema de cura: uma vida melhor, obtida a partir do entendimento de si mesmo, do próximo e do mundo. "Por ser um tratamento holístico, ela envolve os aspectos físicos, psicológicos, mentais, sociais e espirituais, convidando-nos à harmonia interna e externa em nossas relações.

Seu maior mérito é invocar nossa responsabilidade sobre os processos de saúde e doença", explica Fátima Martinhão, especialista no assunto. Trocando em miúdos, os conhecimentos ayurvédicos funcionam como uma bússola, que direciona nossas ações, mas agir certo ou errado é uma escolha particular e intransferível: "Ainda há uma grande parcela de pessoas que prefere o caminho mais fácil, o da inconsciência, como aqueles que se medicam sem buscar a verdadeira origem de sua dor ou moléstia. No entanto, no universo todo cresce o movimento do natural, do holístico na busca pela raiz dos desequilíbrios que desencadeiam os males físicos", complementa Jussara Corrêa, terapeuta consultora e instrutora de Ayurveda.

É com uma combinação de massagens, exercícios, meditação, dieta, medicamentos naturais e mudança de hábitos que a medicina ayurvédica promete levar mais saúde, bem-estar e longevidade a quem a procura. No combate ao que nos adoece, a técnica não propõe nenhuma mágica, mas sim transformação. Leia mais a seguir.

Para cada biotipo, um tratamento

Na visão ayurvédica, nossa existência está em sintonia com os cinco elementos da natureza: éter, ar, fogo, água e terra. Eles se combinam e geram energias individuais, os doshas. É baseado no dosha, uma espécie de biotipo energético, que nosso corpo recebe maior ou menor influência de determinado elemento. Além de influenciar a personalidade, essas características regem também atividades metabólicas e a resposta do nosso sistema imunológico. Para esta filosofia, existem três doshas: a associação dos elementos éter e ar gera Vata, representando movimento, agilidade e instabilidade. Fogo e água resultam em Pitta, que denota combustão e irritabilidade. O terceiro perfil, chamado de Kapha, vem da junção entre água e terra. Sua estrutura é forte e equilibrada. "Todos possuímos um pouco de cada dosha dentro de nós, mas geralmente há a predominância de um deles. O ideal é harmonizar essas forças", explica Fátima.

Identificar no paciente seu dosha dominante é parte essencial do tratamento indiano. A partir de uma análise detalhada, é revelado o Prakruti (características dos doshas originais do nascimento) e o Vikruti (desequilíbrio atual), que abre as portas para doenças. É com base nessa medida que o especialista conhece o ritmo do paciente, a melhor alimentação para o seu perfil, a profundidade ideal do toque na hora das massagens e as correções na rotina que podem harmonizar as três potências.

Mas o diagnóstico não se restringe a isso. "Observamos o comportamento geral: fala, gestos, aparência física, tom de voz e todas as reações apresentadas. Sentimos a temperatura da pele, textura e aspecto das unhas e cabelos. A pulsação também é importante, pois mostra a manifestação dos doshas", explica Jussara.

Um bate-papo longo, uma espécie de anamnese, também fornece preciosas informações para o médico ayurvédico. Esses fatores, quando unidos, funcionam como um espelho, que reflete o posicionamento da pessoa diante da vida e a forma com a qual seu físico e sua mente reagem a estímulos e situações. "Só então é que podemos iniciar os procedimentos terapêuticos individualizados, voltados para a natureza e as necessidades daquela indivíduo", pondera Jussara.

Vilãs da vez: as toxinas!
 

Além do equilíbrio dos biotipos, outra condição básica da medicina ayurvédica para o estabelecimento de uma vida saudável é a eliminação das toxinas. Para isso, nossas excreções naturais, tais como urina, fezes e secreções do nariz, olhos e ouvidos, devem fluir livremente. "Esse processo não é estático, assim como a natureza. Dessa forma, fatores internos e até mesmo o meio ambiente podem desequilibrar as ações fisiológicas", afirma Jussara.

É aí que entram duas das principais preocupações da terapêutica: a assimilação correta dos nutrientes e o poder digestivo. Alimentos mal digeridos não fornecem energia ao corpo e formam toxinas, obstruindo canais e debilitando o funcionamento orgânico. O resultado disso? Metabolismo lento, alterações no humor e propensão a diversos males.

Mas se engana quem pensa que é a boca o maior canal de absorção de toxinas: emoções negativas podem ser ainda mais nocivas do que comidas pesadas e gordurosas.

"Assim como o alimento, os sentimentos também podem ser remédio ou veneno. Um exemplo disso é o que acontece com o dosha Pitta (fogo e água), que em equilíbrio é brilhante, decidido e competitivo. No entanto, se ele tiver um trabalho inadequado ou sofrer muitas frustrações e estresse, irá desencadear sentimentos intensos de raiva, impaciência e intolerância. Seu físico manifestará isso por meio de queda de cabelo, dores de estômago, azia e úlcera", enfatiza Jussara.

Coisa de pele...e muito mais!
 

A pele é o maior órgão do nosso corpo e possui funções vitais como a proteção e o revestimento dos tecidos. Na medicina ayurvédica, ela atua como veículo fundamental de substâncias medicinais, que são levadas ao organismo principalmente pelas massagens. Além do relaxamento, fator indispensável para quem deseja ter saúde e qualidade de vida, a massoterapia indiana induz o corpo a receber melhor os estímulos, sejam eles vindos dos óleos e medicamentos utilizados nas sessões, ou das próprias reações do físico, que passa a trabalhar em equilíbrio.

Uma das técnicas mais conhecidas é a massagem abhyanga, cuja tradução significa "mãos amorosas". Nessa prática, a pessoa é banhada por uma combinação de óleos e ervas e depois massageada por dois terapeutas, ou seja, por quatro mãos de uma só vez.

A mistura quente conforta e alivia as tensões quase que imediatamente. Os toques profundos ajudam o corpo a expelir as toxinas, a nutrir todas as áreas, inclusive as articulações, fortalecendo o sistema imunológico, além de espantar a insônia e outros males.

Outro recurso que merece destaque é o "shirodhara"(shiro: cabeça, dhara: líquido que flui). Nele, um líquido medicinal morno, preparado com ervas e óleo (ou leite), é derramado em forma de fio na região do terceiro olho do paciente. É como se desligar do exterior por meio de um botãozinho e voltar-se inteiramente para si mesmo. A estimulação proveniente do calor e da densidade do líquido potencializa a ação do chacra frontal, responsável pela expansão da consciência. O shirodhara combate o estresse, a ansiedade, o pânico, a depressão, os distúrbios do sono, ajuda na recuperação da memória e revitaliza o sistema nervoso central. Poderoso, não?

E já que falamos em toxinas, vale citar o swedena, que significa suor, literalmente. Essa técnica é tão simples que pode ser feita em casa. Basta aplicar toalhas umedecidas com água bem quente em determinadas áreas do corpo. Nos ombros, você dissolve as tensões; sobre o peito você acelera o processo curativo de resfriados e alivia sentimentos de tristeza; na garganta você atua sobre o potencial de exercer voz ativa. O tratamento deve ser finalizado com compressas frias sobre os olhos e a testa. Em seguida, beba um chazinho morno, para hidratar o corpo.

O poder dos sabores

Diferentemente do que estamos acostumados, quando o assunto é comida, a medicina indiana não se preocupa com contagem de calorias. Nela, um prato saudável e equilibrado deve conter os seis sabores da natureza: doce, salgado, ácido, picante, amargo e adstringente. O curioso é que em sânscrito rasa quer dizer tanto sabor quanto emoção. Daí a idéia de que, além de nutrir o nosso físico, aquilo que comemos alimenta também nossas emoções. Conheça um pouquinho mais a respeito os sabores, suas funções e as sensações que libertam.

Doce - tem como função nutrir os tecidos do corpo. Libera sentimentos de amor e satisfação e lembranças de infância. Seu excesso promove carência e apego. É encontrado nas proteínas, gorduras e carboidratos.

Salgado - tem função sedativa e digestiva. Agrega energia e coragem. Abusar desse sabor estimula sentimentos como o ciúme e a agressividade. Está presente no sal, molhos, peixes de água salgada, algas e carnes salgadas.

Ácido - abre o apetite e auxilia na digestão. Estimula a audácia e a excitação. Em demasia leva ao ressentimento e à inveja. São fontes de ácido as frutas cítricas, o abacaxi, iogurtes, queijos amarelos, tomate, vinagre, entre outros.

Picante - acelera o metabolismo, facilita a digestão e purifica o organismo. Seu consumo moderado traz o interesse pelo novo. Em excesso pode gerar ira, impaciência e sarcasmo. Encontrado no gengibre, alho, cebola, mostarda, pimentas, etc.

Amargo - é antiinflamatório e desintoxicante. Estimula o desejo de se desenvolver e mudar. Em demasia traz a amargura da frustração. Está presente nos vegetais verdes e amarelos, café e outros.

Adstringente - reduz as reações corporais e ajuda a formar o bolo fecal. Promove a introspecção e a clareza mental. Em grande quantidade, agrava inseguranças e o cinismo. São fontes desse sabor a banana, o feijão, a lentilha, a soja, o tofu, maçã, etc.

Mente quieta, saúde na certa!

De acordo com Jussara Corrêa, a ioga também é um instrumento da terapia: "A prática é ciência-irmã da ayurveda e complementa um estilo de vida saudável", diz.

Os asanas, posturas trabalhadas na ioga, auxiliam a manter o condicionamento físico e estimulam o sistema endócrino. A respiração, ferramenta fundamental na prática, tem o objetivo de aquietar a nossa mente e nos ajuda a entrar em estágio de meditação. "Meditar nos faz ir ao encontro de nosso eixo, libera hormônios importantes para o equilíbrio físico e emocional, nos ensina a acalmar os pensamentos e a conhecer nosso metabolismo. Os pranayamas, exercícios respiratórios que levam à meditação, auxiliam a movimentar corretamente o prana, energia vital do universo", completa a especialista.

Medicina do futuro

Apesar de seus mais de cinco mil anos de existência, há quem acredite que a medicina ayurvédica é a terapêutica do futuro. Isso porque ela não é invasiva, tem efeitos colaterais muito reduzidos, é completa e barata. Uma prova da importância da técnica é que ela é hoje o segundo motivo pelo qual os turistas escolhem a Índia como destino, perdendo apenas para as questões religiosas. "Precisamos que as autoridades no Brasil validem cursos de medicina com especialização em Ayurveda, como já o fez para a Medicina Tradicional Chinesa e homeopatia, pois seu custo reduzido significaria um grande avanço para a população carente. O mais interessante é que Ayurveda vem se adaptando à nova era, sem perder a sua essência milenar", finaliza Jussara.

Em paz com o todo

Seguir a medicina ayurvédica exige integração com a natureza e seus elementos. E é por meio dos nossos cinco sentidos que nos comunicamos com o universo. Então, arranje um tempinho para se conectar a ela e trocar energias com o planeta.

Veja algumas dicas:

ande descalço na terra ou na grama
ao passar pelo jardim, toque as pétalas de uma flor e sinta o seu perfume se espalhando pelo ar
vá ao parque e sente-se em frente ao lago
faça um escalda-pés e no fundo da bacia coloque pedrinhas de rio
saia na chuva, lave a alma
abra a janela, deixe o sol entrar e aquecer o seu coração
ao caminhar, repare em tudo que o cerca. Ouça os sons da natureza: os passarinhos, sinta a brisa

Um pouco mais sobre os doshas
 

Kapha
são robustos e estáveis, com dificuldade para perder peso. Têm boa resistência a doenças e forte sistema imunológico. Quando em desequilíbrio, podem apresentar moléstias do sistema respiratório, obesidade, apegos em excesso e depressão. Não aceitam bem as mudanças impostas pela vida.

Vata
abrange todos os movimentos do nosso corpo físico e emocional. Os indivíduos com predominância vata são rápidos, criativos, longilíneos, com dificuldade para ganhar peso. Têm olhos pequenos e lábios finos. Em desarmonia, reagem ao mundo com medo e ansiedade. É comum sofrerem de insônia e prisão de ventre.

Pitta
rege o metabolismo tanto em nível do trato gastrointestinal como celular e mental. São pessoas de boa compleição física, corados, críticos e inteligentes. São donos de um espírito natural de liderança. Seu desequilíbrio torna-os raivosos e propensos a desenvolver doenças inflamatórias.